Salvos pelas Havaianas!

Por: Breno Galvão / Haja Chão      

Eu tentei por uns segundos não acreditar no que meus olhos viam. Mas Renata confirmou: estava sim saindo fumaça pela frente do capô. Estávamos na savana africana, cercado por zebras e gnus, em estrada de terra, sem sinal de civilização e sem telefone para ligar para ninguém.

Uma das coisas que conversamos bastante antes de sair do Brasil era que obviamente nem tudo daria certo sempre. Chegamos a conclusão de que três coisas aconteceriam: seriamos roubados, adoeceríamos e o carro quebraria. Saímos de casa com isso em mente, e prometemos um ao outro tentar manter o bom humor e a atitude positiva. Torcíamos para que o roubo não fosse violento, que a doença não fosse grave e que, se (ou melhor, quando) o Pau de Arara quebrasse, que fosse em algum lugar com estrutura, para conseguirmos mecânicos, peças, guinchos, ou o que fosse necessário.

Faltou combinar com o Pau de Arara, nosso Defender 110.

 

Entrada do Parque Nacional Foto: Breno Galvão

Estávamos nos nossos últimos dias de África, terminando o nosso último Safari no Parque do Serengheti, norte da Tanzania, local lendário para qualquer um que já tenha sonhado em fazer um safari. O caminho de Arusha, principal cidade da região e que serve de base para as expedições ao parque, até o Serengeti, passa necessariamente por dentro Área de Conservação da cratera do vulcão Ngorongoro, lugar não menos icônico, e era justamente onde nos encontrávamos.

Havíamos passado dois dias zanzando na savana, maravilhados com nossa última oportunidade de ver os animais em seu habitat natural, dormindo acampados no Pau de Arara pela última vez na África, e estávamos voltando para a civilização. A estrada asfaltada mais próxima ainda estava a uns 80 km de distancia. O caminho até ali tinha sido terrível, com muitos buracos, pedras e trepidações.

Parque estadual Serengeti/Africa Fotos: Breno Galvão

O Pau de Arara estava em frangalhos. Depois de mais de 15.000 km de estradas africanas, ele estava precisando de um descanso. A parte debaixo do painel tinha desmontado num buraco poucos quilômetros antes, e Renata vinha segurando ele praticamente no colo. O aparelho de som tinha caído de sua moldura e mergulhado por trás do painel. Vínhamos fazendo piada e pedindo paciência e um pouco mais de força ao Pau de Arara. Em poucas semanas, prometemos, o sofrimento (ou seria diversão?) de lama, areia, agua, riachos, pedras e buracos estaria terminado.

O perigo rondando

Mas não era miragem. A quantidade de fumaça branca aumentou e tivemos que parar. Desliguei o motor e fumaça diminuiu. Desci do carro e Renata ficou de vigia, olhando por todos os lados. A orientação dentro dos parques de Safari, em todos que visitamos, é bem clara de que não se deve sair do carro em nenhuma hipótese. Nunca se sabe quando um animal está por perto.

 

Estávamos de fato cercados por centenas de zebras e gnus. Havíamos visto o último leão há meia hora, a uns 20 km dali.

Não foi difícil descobrir o que tinha acontecido. O bujão (ou tampa) do radiador tinha partido com o calor da água e do vapor do motor. Não chega a ser um problema grave. Basta trocar o bujão, completar o radiador de água e seguir viagem. O problema era onde achar o diabo da tampa ali no meio do nada. (Me martirizo até hoje de não ter incluído um desses bujões de reserva na lista de peças suplementares que carregamos). Teríamos que pensar em alguma solução.

Estávamos sozinhos, mas demorou poucos minutos até eles aparecerem. Vieram andando devagar pela estrada, passo lento e desconfiado, e por fim, sorriram. Estávamos no coração do território dos Masai, uma tribo muito característica, com seus cajados, roupas coloridas, cabelos raspados, corpos magros e esguios. Quando dei por mim, estávamos eu, Renata e quatro guerreiros Masai quebrando a cabeça de como tapar o buraco deixado pelo bujão rompido, para tentarmos levar o Pau de Arara até Arusha.

Breno e os Masai

Um deles repetia insistentemente uma palavra que soava mais ou menos como “pasha” ou “pesha” que até hoje não sei o significado. Eles não falavam inglês, e nós, obviamente, nada perto do idioma local. O mais alto deles, que estava tentando se comunicar mais, pegou um galho e começou a mordê-lo e talhá-lo a fim de dar uma forma de cone, para enfiar no buraco e improvisar uma tampa. Achei engenhoso, mas fiquei com medo de pedacinhos de madeira cairem para dentro do radiador e ficarmos com um problema ainda maior. Pensamos também em tentar colar uma moeda, que caberia justinho, mas o calor do vapor não deixaria que a moeda fosse fixada.

“Até que olhamos para o chão e ela apareceu! Minha sandália havaiana! Cortamos uma tira larga e alongada do bico do meu pé esquerdo, dobramos ao meio para dar corpo, e começamos a tentar socar esse plug de borracha no buraco”. Nossos amigos se revezavam conosco na tarefa de tentar deixar o remendo bem apertado. Completamos o motor com água, demos a partida e cruzamos os dedos.  O Pau de Arara roncou suave com seu barulho de motor a Diesel. Adoro o barulho que ele faz, e nesse dia especificamente soou como música. Que música boa. Demos adeus a nossos novos amigos. Pegamos uns poucos xelins tanzanianos que nos sobravam e demos a eles em agradecimento, mesmo que não tivessem pedido.

Um bujão de havaianas.

Seguimos o resto do caminho devagarinho, parando a cada poucos quilômetros para checar o nível da água e se o remendo ainda estava lá. Conseguimos chegar até Arusha já ao cair da noite, orgulhosos de termos conseguido, e orgulhosos mais ainda do nosso companheiro de viagens.

No dia seguinte, não achei peça de reposição, e resolvemos seguir na melhor filosofia “deixa como está para ver como é que fica”, e partimos em direção à fronteira com o Quênia. Viajamos na dúvida de se a gambiarra iria aguentar tantos quilômetros, ou se o Pau de Arara nos deixaria na mão naquele fim de mundo.

Não deixou. Alguns meses depois, entramos em uma oficina de Land Rover em Zagreb, na Croácia, a mais de 5.000 Km dali, eu, o Pau de Arara e o pedaço de Havaianas vedando com muita segurança o escape do radiador.

O Guerreiro Pau de Arara

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4 COMENTÁRIOS

  1. Antes de qualquer coisa, Parabéns. O site está delicioso de ler, e tanto conteúdo em tão pouco tempo de vida dá a mim, pelo menos, uma curiosidade enorme de revisitá-lo algumas vezes por dia pra ver se tem coisa nova. E a respeito do perrengue no Serengeti, parabéns novamente. Matéria boa de ler e mostrando uma solução engenhosa pra um problema comum nas Defender – já vivi isso numa 90. Como o próprio Ricardo Pocholo diz, trocar o bujão de plástico pelo de metal é regra de ouro.

    • Oi Virginio, obrigado pelo comentário. Pois é, estamos trabalhando para que todo dia tenha uma matéria interessante, no final da semana enviamos nossa Newsletter por email com os posts da semana, já se cadastrou?.Se tiver alguma sugestão ela é muito bem vinda. abs.

  2. Acompanhando algumas expedições de land rover defender pelo mundo… já percebi que o melhor kit de peças que você pode levar em uma aventura dessa… é levar outra defender! Oh carrinho pra quebrar! PQP!

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